O que arde cura ?

Escrevi no dia que decidimos divorciar-nos que o divórcio é como uma amputação. Cortar uma parte para salvar o resto. Foi por isso que naquela altura achei que não valia a pena insistir numa situação que claramente estava condenada. Acabar com o casamento para dentro do possível salvar a nossa amizade e o bem estar do Gonçalo e da Simone e quem sabe no futuro salvar o nosso amor.

Passados estes meses, percebo que de certa forma esta frase faz sentido. Creio que esta amputação na nossa vida, permitiu a mim melhorar muita coisa, permitiu-me perceber de fora o quanto errado estava, o quão idiota fui.

Dizes que jamais me perdoarás o corte que te obriguei a fazer, mas espero que um dia entendas que foi esse corte que me salvou da minha inconsciência egoista e que me permite hoje saber o quão valiosa e essencial tu és para mim.

Mas, um acto extremo e fracturante como este vem com um preço. Esse preço para mim é insuportável. O custo poderá ser perder-te. Custa tanto, agora que entendi o que fiz mal, agora que entendo o que desejas e me pedias, agora que queria tanto poder ter o que desperdicei, corro o risco de não o poder provar, corro o risco de ter apreendido para me amargurar ainda mais, porque teria sido tão mais fácil ter ao longo do tempo ter cuidado da nossa relação sem ter de chegar a esta solução tão dolorosa. Mas prefiro tê-lo atingido, mesmo que isso me provoque mais sofrimento, que ter mantido a minha cabeça na estupidez e não compreendesse as tuas razões e a tua razão.

O tratamento está a doer e nada garante que resulte. Será que o que arde cura ?

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